Tempos Frágeis: Tempos de grandes mudanças, até nas pequeninas coisas. Ou a poesia está Tão na Moda. Ou eu não sei o que hei-de fazer com o ócio e ponho-me a escrever coisas.
Soube hoje pela rádio que o Frágil promove agora sessões de poesia!
Isto pareceu-me uma mudança tão radical como a do skinhead que se transmutou numa adorável assistente das minorias excluídas.
O lugar mítico da noite do Bairro Alto dos anos 80, com aquela senhora à porta cujas medidas eram exactas para censurar a entrada aos não-clientes-habituais, lá de cima, empoleirada no topo da “pirâmide social”. Entrada onde se ficava entre a “rainha da noite” e o seu capanga endomingado.
E quando se penetrava naquele lugar de elite frívola e mesquinha, vislumbrava-se certamente essa apetência para a poesia que hoje, ao fim de vinte ou mais anos, se revela.
Eu é que entornava sempre a poesia toda pela Atalaia abaixo.
Não quero dizer com isto que o Frágil não seja uma boa carta no baralho das felizes recordações dos anos 80. Um valete, talvez. Depende do jogo.
Mas poesia?
Aquele talvez fosse dos poucos lugares onde fossemos despojados de toda a poesia que trouxéssemos na algibeira. Logo na entrada, com a autoridade à porta (e aí residia a grande diversão!), como quem escolhe entre os homens: os bons e os maus, os judeus e os católicos, os ricos e os pobres e o resto do rol que já sabemos. Mas era uma autoridade promovida pela elite! (a elite eleita pela elite – o eterno espasmo). A censura dos que lutam pelas minorias e pela diferença. Era uma autoridade com bons princípios!
E agora lá vem a poesia!
Enfim, talvez possamos remeter a nossa memória, através destas recordações para duas acções poéticas: a música dos Ocaso Épico que julgo ter este nome: «Eu quero ir ao Frágil» (lembro-me da musica e da letra, mas sei lá como lhe chamaram), ou para o poema do Almada – LIBERDADE:
«(...)Havia dois vasos iguais. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter água simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era à sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguém queria ser o primeiro a começar.
Depois começaram a beber o licor. Diziam coisas tão felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! estavam a aumentar a olhos vistos, juro-te!
Os que beberam do outro vaso não divertiam ninguém. Iam-se logo embora. E já ninguém se lembrava deles.
Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu também bebi do licor. Não imaginas, Mãe! Nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!
Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã também estava a aumentar.
Depois, quando já estava quase do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.
Então, pus-me logo a escorregar desde lá de cima, até aonde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.
A escorregar, a ser necessário escorregar, a querer por força escorregar, a custar imenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar. – O verbo desinchar!
O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo.»
Raquel
7/04/2011

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