quinta-feira, 3 de março de 2022

 A ALHEIRA

Trouxe uma alheira de Lamego. Assada no forno, dissipou aromas que me trouxeram à memória a destreza de quem inventou aquela maneira de ludibriar a tirania da Inquisição. Que elegância se eleva perante a malvadez na invenção de uma alheira. Devo ter alguma ascendência judia, talvez. Não que o saiba, mas porque todos teremos certamente origem num único ponto, numa espécie de raça única de onde germinou a humanidade. Lembro-me de pensar em criança que seria de todas as raças e provinha de todos os povos. A minha mãe costumava dizer-me que os meus olhos papudos eram característicos dos lapões. E mostrava-me, num livro, de cujo nome não me lembro, o rosto de uma jovem da Lapónia com as pálpebras salientes, que viam em mim. Parece que esta espécie de edema protege da luz intensa do sol reflectido na neve. Mas eu, se vivi na Lapónia, foi há centenas ou milhares de anos. Mais tarde, ao ler um livro de contos populares chineses, lá pelos meus dez anos, convenci-me de que as minhas origens estavam na China (também me diziam que tinha olhos de chinesa, o que me permitia escolher). Os chineses também têm esta membrana que cobre as pálpebras, tal como os japoneses e os lapões. E eu. A minha afinidade com essa cultura, a música e as danças, o teatro de sombras, os leques, o modo de estar à mesa, a poesia, a escrita e a cultura chineses, tudo me fascinou, desde sempre, com uma espécie de saudade prévia. Ou porque há coisas que conhecemos antes de sabermos que existem. Foi essa existência prévia que me convenceu da minha ascendência japonesa: uma longa história que ainda não terminou. Depois, foi Marrocos, onde cada recanto me foi tão próximo como a cidade onde nasci. Revisitei pessoas que nunca vi, reconheci aromas, cores, a luz baça da tarde na quietude languida de Agosto, os sabores e o toar das vozes, mais uma vez o teatro, a música, a voluptuosidade. Então, fui marroquina, também. Depois, ainda - e antes de tudo isto - trouxe em mim o sangue de todos os povos, dessa raça una que se desmembrou e reside fragmentada na memória dos tempos. Essa humanidade que gravita em nós e em nós desfalece, essa onda que se abate na areia, se esvai, insondável. Aparentemente transitória. A arbitrariedade da guerra. A inevitabilidade de inventar alheiras. Nunca tinha pensado na elegância de uma alheira diante de um tirano. Uma delícia, ademais.

 

Raquel Alves Coelho | 03/03/22

sábado, 25 de abril de 2020

O homem da Rua S


Na Rua S, o silêncio estrondeou na pressão do mundo suspenso. Não houve tempo sequer para arrumar os passos nas ruas.
Recolhimento abrupto provocado por nada que se visse. Tememos fantasmas, almas penadas, lobisomens, e outros papões da imaginação dos oprimidos do medo. De resto, não me recordo de alguma vez termos fugido do invisível, do incorpóreo, do que não tem odor nem som, mas que nos persegue, tácito como um espectro, e nos mata, sondava o homem da Rua S. Ainda ontem estas ruas do centro da cidade vociferavam em múltiplas línguas desse frenesim de consumo turístico. Hoje, nem dois passos ecoam no oco da cidade nua.
O homem da Rua S sentiu a paz plena por poder respirar o silêncio há muito perdido no centro histórico onde habitava. Já se ouviam os pássaros. De onde teriam regressado? O estancar abrupto da engrenagem da vida agradou-lhe. Imergiu em projectos, afazeres, rotinas novas, e, fez compras através da Internet, onde agora estavam todos reunidos nessa comunidade tão bem engendrada, o bastante para as suas necessidades materiais, físicas, intelectuais, sociais: compras online, actividade física, música, livros, notícias sobre o medo, que não o atormentava porque tinha decidido não sair de casa, nem sequer para fruir a súbita quietude da Rua S.
O homem da Rua S foi seguindo o rumo dos dias, satisfazendo projectos que não suspeitaria poder concretizar há poucas semanas atrás. Finalmente tinha tempo. Tempo!
O tempo é um abismo traiçoeiro que ilude na sua cadência insondável. O homem da Rua S vagueou pelos dias como um caminhante fortuito no deserto. Essa imensidão da liberdade inusitada dos primeiros dias tornara-se a Medusa que o transformaria em rocha. A solidão não é estar sozinho, mas a ausência de humanidade. Há uns dias que sondava, e apercebera-se que nem uma só vida humana se manifestava em seu redor. Nem um som de vizinhança, ninguém abeirado numa janela, o troar de uma porta que bate. Nada.
O homem da Rua S trabalhava fora do bairro onde vivia e fugia ao afã das centenas de turistas que por ali rodopiavam diariamente, antes da pandemia, por isso, nunca se apercebera de que já ninguém habitava as redondezas. Não tinha um único vizinho, nem no prédio de quatro andares, onde ocupava o último, nem nos que lhe eram próximos. Tudo convertido em hostels e airbnb. Confirmava-o o contentor do lixo, onde apenas ressoava o saco com os restos que agora ali depositava dia sim dia não.
Recuou em pensamentos e, na verdade, não se lembrava de se ter cruzado com a mesma pessoa duas vezes seguidas. Saía cedo e regressava tarde, com pressa e embrenhado em pensamentos que o alheavam da realidade que habitava a Rua S.
A Rua S era apenas a sua casa, o lugar onde se recolhia, abrigado do mundo. Era o lugar de onde tinham fugido todos os pássaros. Era o mundo fora do mundo.
Consciente, agora, da sua solidão, o homem da Rua S resolveu sair do bairro, de novo habitado pelo imenso chilrear de pássaros, com vista a cruzar-se com alguém; um olhar furtivo, a cadência de passos na calçada, um aceno de quem cede passagem, um qualquer movimento humano bastar-lhe-ia para saciar esse vazio social. Social. Por mais “gostos” e “corações”, comentários e elogios, lamentações e queixumes, impressões e opiniões trocadas e lançadas à mercê de quem queira esbracejar nas redes sociais, nada colmatava a suprema necessidade do contacto humano. Naquele momento bastava-lhe o afago de um olhar que se desvia pelo medo do contágio.
Vagueou pelas ruas sinuosas da parte antiga da cidade, transpôs as fronteiras que delimitam os bairros históricos, e ninguém que se avistasse ao longe, as janelas mudas, portas inertes. Uma existência exangue. Julgou, então, encontrar-se numa cidade completamente devoluta e sentiu-se escorregar para o abismo do medo, ao qual se propôs resistir. O homem da Rua S começou a cantar e a reverberação da sua voz na alvenaria das casas respondeu-lhe em coro. Essa sinfonia, que incluía o chilreio das aves no recolher crepuscular, assemelhava-se a um requiem que o mortificava. Mas não se coibiu de levar a cabo este hino até esbarrar com o seu reflexo numa montra que se debruçou diante dele. Neste sobressalto, alguém lhe acenava do interior difuso da loja, cujos vidros não eram limpos há algum tempo. Aproximou-se, tentando alcançar aquele espectro que, como ele, ainda respirava. Avistou ao fundo um vulto que lhe indicava a porta de entrada a que se acedia pela rua perpendicular àquela onde se encontrava. Deu a volta, agitado. Estava ali um homem. Estava ali alguém! Ao fim de um dia em que errou pela cidade deserta, encontrou vida humana que lhe acenasse. Entrou na loja de um passarinheiro.
No exíguo espaço de vinte metros quadrados, encontravam-se centenas de aves aprisionadas. Algumas, de maiores dimensões, agrilhoadas, perscrutavam-no.  Eram bairros e bairros habitados por pássaros tão diversos nas formas e nas cores e tão iguais na sua sujeição. O homem da Rua S estendeu o olhar, percorrendo uma a uma as casas gradeadas que forravam as paredes da loja, sobrepostas do chão até ao tecto. Um trinar enérgico perfurou o silêncio que até então se impunha, sombrio. Por que cantará? – pensou o homem da Rua S.
Os pássaros que isolamos numa gaiola cantam mais. É o que dizem os passarinheiros. Mas ninguém falou.
Avançou até ao fundo da sala, observando cada uma das mais diversas aves, que sobre ele inclinavam o olhar, curvando a cabeça. Passou alguns minutos neste enlevo. Tantos seres com asas, com vida, aprisionados em caixas dispostas em camadas, sem se verem, sem voarem, sem terra nem céu. E ainda cantam? Tão diversos, aqueles pássaros teriam vindo dos mais variados lugares do mundo, de florestas densas e imperscrutáveis, de planícies vastas, de altivas montanhas, e aqui reduzidas à negritude de um rés-do-chão húmido de um bairro da cidade. Pobres aves! – cogitava o homem da Rua S.
As suas deambulações mentais foram interrompidas pelo grito rouco de um papagaio cinzento que roía a pele áspera da pata enquanto o fitava insistentemente. Este som estrídulo despertou-o para o desaparecimento do homem que ele vira através da montra da loja e que lhe acenara para que entrasse. Movimentou-se rapidamente pela sala sem o encontrar. Abriu a única porta que existia no interior da loja, que dava acesso à casa de banho, onde lhe pareceu ver alguns sacos, umas gaiolas vazias e dois panos espessos pendurados junto do lavatório. Como a luz era escassa, perguntou: «Está aí alguém?». A sua voz surpreendeu-o como se fosse exterior a ele próprio.  Assustou-se com esse som produzido pela pergunta que acabara de formular e que parecia ter-lhe sido dirigido. Lembrou-se que talvez esta impressão proviesse de não falar há muito tempo. Há quase um mês fechado entre quatro paredes, isolado, duas ou três conversas telefónicas no início do isolamento a respeito do lay-off a que recorrera a empresa onde trabalhava. Não falava há quase um mês… era verdade, ou mais. Ciente desta estranha constatação, resolveu retomar a pergunta que deixara suspensa: «Está aí alguém?», e reforçou, sentindo-se acompanhado pelo som da sua voz que continuava a parecer-lhe vinda de outro corpo: «Quem está aí?». O papagaio, apesar de agrilhoado, debruçou-se no pequeno poleiro onde lhe era possível movimentar-se e replicou: «És tu.». Por instantes, o homem da Rua S pensou que seria o passarinheiro, mas não foi mais do que uma fracção de segundo que lhe revelou a proveniência daquela voz rouca e estridente. Era o pássaro cinzento que lhe respondia. Fechou a porta onde não havia mais que quietude e contornou de novo o conjunto de gaiolas empilhadas no centro da sala formando um bloco de apartamentos até ao tecto da sala. Percorreu-a pelos quatro cantos. Convenceu-se de que estava sozinho. Onde estaria o homem que lhe havia acenado para o exterior? Repetiu o pensamento em voz alta, mais para exercitar a voz há tanto tempo inerte do que esperançoso de obter resposta: «Onde estará o homem que me acenou pelo vidro?». Mais uma vez o som estrídulo respondeu: «És tu.». E repetiu: «És tu!».
Sou eu, pensou o homem da Rua S. Talvez seja. Não há aqui mais ninguém. Talvez tenha sido o meu reflexo no vidro o homem que vi. Talvez cioso por encontrar alguém me tenha iludido. Algum movimento de uma árvore que se tenha transfigurado num aceno, num convite. Talvez seja convidado de mim mesmo no reduto da solidão.
A noite desabara e o homem da Rua S estava exausto de tanto vaguear. Nem sabia ao certo em que ponto dos arrabaldes da cidade se encontrava. A caminhada solitária, a Rua S solitária, os seus intentos malogrados; apenas uma miragem de passarinheiro. Ficava ali.
Estendeu-se sobre os panos que avistara na casa de banho. As gaiolas iluminadas pela luz da rua, os pássaros de cabeça recolhida sob uma das asas. Ele com a cabeça sobre um dos braços. Todos encarcerados, inexistentes, viventes, porém. Adormeceu.

Raquel Alves Coelho
24 de Abril de 2020

domingo, 4 de novembro de 2018


Não, meu amor, não procuro qualquer sentido nestas palavras. Gosto de ti como uma cãibra e não posso tropeçar na candura do tempo. Há um entendimento nervoso entre mim e a rua cheia de precipícios. Esta vertigem é inabalável e os meus membros transpõem o musgo dos muros antes que as palavras ecoem no vale. Debruço-me e estendo o caminho para o meu grito passar como um eco que abandonei. Se os passos tropeçam, existe o mar num mergulho agasalhado. Depois do pranto, o vento penteia-me os cabelos. Não, meu amor, é o alvor das geadas que forma sulcos na rocha dos meus dias. Desfaço-me como uma caixa de cartão na chuva. Se o sangue parar, teremos a eternidade para desenhar o escárnio do entendimento. Há um riso de amoras amargas e o vento deixou de cantar. Escuto. Parece que o silêncio se entalou na porta. Sinto o teu sangue pisado nas olheiras. Intermináveis noites de insónia. Há música por trás das portas cerradas. Há música a latejar na pulsação dos minutos. Se a lua se extinguir, como poderás cair sem que te veja? Não, meu amor, este tempo cheira a torneiras de cobre oxidadas. Se eu te disser muito baixinho que a mesa se ergue calada a colher vinho vertido com uma cãibra na perna?

quinta-feira, 22 de março de 2018

PASSOS LÍQUIDOS

O teu silêncio
Esse leito de brasas onde arquejas
Na solidão
O vulto com que te ausentas
Em passos líquidos
Escorre pelos muros
De musgo o orvalho da manhã
O caminho é cerrado
Até ti
De floresta e bruma

Fragmentada
A noite ecoa
No silêncio do teu
Clamar
O gesto transparente
Da aurora
Acena
Um adeus caído entre gotas
Mornas
Da chuva replica
O odor esmaecido
Onde te lembro
E a Primavera em chama
Como se um adeus
Fosse
Somente despedida.

Raquel Coelho

21/03/2018

A ESQUINA


Encontrei-me contigo numa esquina
Não foi bem um encontro
Foi um encontrão
Vínhamos distraídos
Íamos distraídos porque
o amor
na agitação da cidade
os prédios a tombar de gente
os autocarros a cuspirem horas
(de atraso)
De quê?
os passos tropeçados nos escarros dos passeios
Enfim, no meio da pressa
Esquecemo-nos da vida
Dizia eu que
O amor
Tinha ficado esquecido talvez
No assento sujo
Do táxi naquela manhã
Em que
O despertador não
Soou.
Que manhã!...
Com a pressa porque o despertador não tocou
O telefone caído no
Duche o autocarro
A deixar a paragem
Corri…
Mas caiu-me do bolso
Gritei
Gritei pelo táxi e por tudo o que perdi
POR TUDO O QUE PERDI
Gritei pelo táxi
Que vinha a passar mal
O autocarro largou da paragem
Parecia de propósito
Logo naquela manhã em que iria encontrar a esquina onde me cruzaria contigo e…
TAXI! TAXI!
Gritei
Ofegante entrei disse o nome
Da rua o trajecto mais curto
Tinha muita pressa nunca me tinha atrasado
O despertador
Falhou só daquela vez
Disse o trajecto mais curto passou
Alguns vermelhos e cheguei
Pouco antes de ser despedido
Julgo eu… Talvez
Tenha sido despedido antes de chegar
Mas não o pude saber
(Não pude saber o que aconteceu antes de eu ter chegado)
Foi nessa manhã
Perdi tudo mas tive a sorte
De encontrar o meu nome entornado
Na berma da estrada era ele
Era ele sem mim
Mas de que me serviria um nome sem gente lá dentro?
Quando curvei a esquina tu
Já tinhas partido
Curvei e recurvei a esquina para
Te encontrar
Tinha a certeza que naquela manhã
Me iria encontrar contigo
Nessa esquina
Era a esquina onde te pediria que me desculpasses
O encontrão
(um acaso)
Onde saberias que iria distraído
Era esse o momento de te sorrir
Quando te pedisse desculpa
Ficarias a olhar-me
surpreendida
e talvez me respondesses qualquer coisa
Convidar-te-ia para um café dir-te-ia
O meu nome
(sem ninguém lá dentro, sim, mas
era o que tinha para te oferecer)
Dar-te ia o número do meu telefone
caído no duche perderia o autocarro e talvez
surgisse o táxi onde
naquela manhã deixei
o amor
Convidar-te-ia para um café fora
Da cidade junto ao mar

Mas o mar ondeia sempre
Em movimentos
Circulares
Cir-cu-lares…
Como poderia
Ali
Descobrir a esquina parada onde
Sei que te encontraria?
Como poderia
fora da cidade das janelas cegas
Dos autocarros perdidos dos despertadores
Caídos na berma da estrada…
Como poderia encontrar-te num mar
Sem esquinas?


Raquel Coelho
21 de Março de 2018





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Carta de Natal

Caro amigo,
A rua desce sombria
E rápida, mas a subida dura
É soalheira.
O franco azul
Do céu cheira a orvalho e maresia
(mesmo rasgado pelo avião a jacto)
Nele não se desenham
Nem estrelas nem o luar
Mas na colina a erva
Cintila.
Já amanheceu há muito. O ruído
Rompeu a aurora rotineira
Desta sexta-feira (vésperas
De Natal
De 2016). Estamos em 2016,
Caro amigo, e as pessoas por aqui ainda
Festejam.
Passou
Tanto tempo
Há, como sempre, rostos
Alegres e tristes
Pensativos e ausentes
Atentos, dispersos
Vazios desrostos
Desgostos
Que descem a rua sombria ou sobem
Num esforço de sol quente.
É assim
Há muito tempo, caro amigo,
Os anos passaram e nada mudou.
Os pássaros chilreiam enquanto estrondeia
A guerra
Do outro lado do mundo.
O lado distante que não vemos.
No mundo há sempre dois lados, caro amigo.
O tempo passa e
Há sempre o outro lado do mundo. Aqui
Festeja-se o Natal porque
Está na ordem da vida festejar.
Também os gatos
Lá fora
Festejam o sol de corpo
Estendido como tapetes
Festejam a morte
Das lagartixas e dos ratos. Há sempre
O outro lado da vida, caro amigo.
Até os gatos sabem disso
Quando ronronam.
Há muito tempo que assim acontece. Os homens festejam
A guerra com tiros de fogo e aguardente velha.
(Os que estavam mais perto da morte e sobraram
Bebem bagaço). Passam os séculos
Com o mesmo cheiro a enxofre e aguardente. Sempre
Foi assim, caro amigo. Aqui é Natal e os homens
Festejam. O ocaso
Eclodiu em tonalidades lentas: azuis,
Vermelhos, roxos, laranja, verdes, rosa
Até ao mais profundo
Azul da noite estrelada. Agora as sombras
Desafiam os cães
(como sempre aconteceu).
O chilreio ensurdeceu nas copas das árvores. Ao longe
Do outro lado a guerra pranteia.
A rua desce e sobe
Nocturna e fria. De que nos servem no Inverno
As copas das árvores sombrias?
O pinheiro, por exemplo, torna a noite de Inverno
Mais escura
Como a morte.
Mas o seu perfume permanece aqui em noites mornas
De Verão. (Há sempre o outro lado, amigo)
Outras de folha caduca
Gritam viuvez
De braços agudos pela lua adentro
Feiticeiras mortas famintas
 E não é ódio, caro amigo, é medo
Medo do vento e da geada
Medo da guerra, do abandono
Do sangue esquecido que corre pela estada. As folhas partem
Errantes sem rumo sem cor
O perfume verde do pinheiro
Ilumina-se
É Natal.

Raquel Coelho
23/12/16








sexta-feira, 6 de maio de 2016

O meu texto para a exposição da Sara Franco e do João Fonte Santa

na sombra do caos derr-ama a memória. armas de aço. armas a morte. ar, mas sufocar. arte. tu ar. toada. és tu. lindo o cartaz. estrelas ca-dentes d'enfeitar.d'enganar. de-rra-me no teu ventre sen-su-alizado suado nesta que-da sem fim. p'ra mim. derrama-me. ama-me assim. explo-de de explosão. com-some-te. some-te. fome.