segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Poema para ilustração de Sara Franco: Silêncio

Dói-me o teu silêncio
Berra-me aos ouvidos
Atordoa
Vagueio pela cidade entre a multidão que passa
Como sombras
Ao fundo da cor
O brilho do rio
A bela paisagem eterna
Que o tempo vai compondo...
Um barco anuncia a partida
E todas as partidas se revelam
No som distante que rasga o espaço
A noite é uma recordação
A lua impõe-se antecipando
A hora-do-crepúsculo
Está enorme, bela
Silenciosa, só
Como quem sofre...
De repente o sabor a mar
No infinito cíclico das ondas
Estonteantes
O rio leva até ao mar
Todos os silêncios dos homens
Naufragados
Estas horas sabem a sal
Aqui debaixo do céu imenso
Pesa-me o compasso do silêncio
Pesa-me
Através do recorte geométrico
Da janela.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Antes de partires
Avisa-me
Para que não me despeça.
Quero ser a primeira ausente
da ausência eterna.
Deixa que a tua presença se confunda
Nos derradeiros passos que hei-de dar.
Que as sombras se cruzem
Na noite de luar
Em que procuras o apelo vão
Do ruidoso silêncio da ausência.
São roucas as últimas palavras
Já são ecos
Desfazem-se os caminhos dispersos
E numa brincadeira só
Avisa-me
Para que não me despeça.

ÍTACA

Quando iniciares a tua viagem para Ítaca,
deseja que o teu caminho seja longo,
pleno de aventuras, pleno de ensinamentos.
Os Lestrigones e os Ciclopes,
não os temas, nem a cólera de Posídon,
nunca encontrarás tais seres em teu caminho,
se o teu pensamento for elevado, se um sentimento raro
preencher o teu espírito e o teu corpo.
Os Lestrigones e os Ciclopes,
nunca encontrarás, nem o irascível Posídon,
se não os transportares na tua alma,
se a tua alma não os fizer surgir diante de ti.

Deseja que o teu caminho seja longo.
Que numerosas sejam as manhãs de Verão
em que – com que prazer e que alegria! –
descobrirás portos que nunca tinhas visto;
detém-te nos mercados da Fenícia
para adquirires preciosas mercadorias;
âmbar, coral, ébano, madrepérola,
diversos perfumes deliciosos,
o mais que puderes de voluptuosos perfumes;
visita também muitas cidades egípcias,
e nunca pares de te instruir junto dos sábios.

Mantém sempre Ítaca presente no teu espírito.
Lá chegar é o teu destino final.
Mas sobretudo não apresses a viagem.
O melhor é prolongá-la durante anos;
e chegar à ilha apenas na velhice,
rico com o que terás ganho no caminho,
sem esperares de Ítaca nenhuma outra benesse.

Ítaca ofereceu-te esta bela viagem.
Sem ela, não terias iniciado o teu caminho.
Ela não tem nada mais a oferecer-te.

E mesmo sendo pobre, Ítaca não te enganou.
Rico em sabedoria, com tal experiência,
terás compreendido certamente o que as Ítacas significam.



Constantino Kavafis
1911

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