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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Era uma vez uma janela

De uma casa à beira rio

Toda preta e aveludada

De luto como uma carocha

Não era casa era uma rocha


Era uma vez uma guitarrinha

Que todo o dia cantava

A história da carochinha

Toda preta e aveludada


Um chorinho morno bailava

A formiguinha embriagada

Que o carreiro abandonara

Numa manhã de trovoada

Entrara pela janela

Porque a porta estava trancada

Da casa preta e aveludada

Que era uma gruta encantada


E junto da guitarrinha

Dança, dança formiguinha

Que o carreiro abandonara


Era uma vez uma casinha

Toda preta e aveludada

Dali espreita uma janela

Com portadas escancaradas

Para o alto da colina

Onde acena La Fontaine

À formiga bailadeira

Que da guitarra se abeira

Como quem canta uma fábula:

«A formiga no carreiro

Vinha em sentido contrário

Caiu ao Tejo, caiu ao Tejo...»


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Antes de partires
Avisa-me
Para que não me despeça.
Quero ser a primeira ausente
da ausência eterna.
Deixa que a tua presença se confunda
Nos derradeiros passos que hei-de dar.
Que as sombras se cruzem
Na noite de luar
Em que procuras o apelo vão
Do ruidoso silêncio da ausência.
São roucas as últimas palavras
Já são ecos
Desfazem-se os caminhos dispersos
E numa brincadeira só
Avisa-me
Para que não me despeça.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Chelas

Amanhece em cinza
O dia.
Brisa marinha?
Não, são as gaivotas
Em ronda
pelos restos espalhados da feira do outro dia.
Feira do Relógio
Áspera agonia da cidade.
Os prédios rasgados em blocos
Perfuram em quadrados o céu triste
Levam o olhar à sujidade do largo
Tão inóspito
Nem sequer é um largo
É mancha de alcatrão e pó
Sem passeios nem rumo
Que acolham os transeuntes...
Ali ninguém passa nem passeia
- ou ficam ou fogem ou morrem...
Não se vive.
As ruas levam a “Zonas”.
Todos os bairros se distinguem por uma letra do alfabeto.
Todos iguais até Marvila
Excepto a Zona Jota.

Ali
Naquele largo que não é largo
Lugar disforme onde a feira grita
Voam sacos, papeis
E as gaivotas suaves em torno de restos de comida.

O olhar escapa
E ao longe
- que belo teria sido!
Como numa pintura bolorenta
Onde ainda brilha um canto de cor
Espreita o rio
E o sol que o ilumina,
A Outra Banda e a Serra
Já quase em despedida...

Os blocos de betão
Onde o negrume disforme da estrada leva
E o tal largo...
Traineira ao largo à guarda das gaivotas
Que nas segundas feiras ali gritam.