sexta-feira, 6 de maio de 2016

O meu texto para a exposição da Sara Franco e do João Fonte Santa

na sombra do caos derr-ama a memória. armas de aço. armas a morte. ar, mas sufocar. arte. tu ar. toada. és tu. lindo o cartaz. estrelas ca-dentes d'enfeitar.d'enganar. de-rra-me no teu ventre sen-su-alizado suado nesta que-da sem fim. p'ra mim. derrama-me. ama-me assim. explo-de de explosão. com-some-te. some-te. fome.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Nós, portugueses,
herdeiros de barcos naufragados
colhemos do mar a morte, a vida e os poetas
o medo que nos tolhe
e a luz que nos liberta.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fénix

É assim que nós, de cada vez que morre alguém que nos é querido, vamos perecendo aos poucos. Atónitos, ainda, diante da foice implacável...
Chegados ao estado das folhas do fim do Outono, um frágil rendilhado de nervuras, quase húmus, ali ficamos, indeléveis, no silêncio dos tempos.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Há pessoas que vivem como larvas, de carácter tão rasteiro, que nem para um voo de varejeira conseguem ter asas.

sábado, 15 de agosto de 2015

   No quarto dos meus avós maternos, com quem passei férias desde a minha mais remota existência. Fui feita aqui, nesta casa, e baptizada no castelo de Sesimbra.

   Esta casa, pequenos objectos imutáveis, as ruas, vestígios dos campos de outrora onde ainda não edificaram casas, a paisagem a serra e o mar. Tudo isto sedimenta anos de recordações. As memórias, tantas, explorações infindáveis de episódios que se sucedem, engrenagens incessantes de ideias, sensações tão distantes. Com cerca de três anos saltei a janela da sala para ir brincar com a menina da casa em frente. Lembro-me da ansiedade de fazer tudo com rapidez, para que se concretizasse. Uma sensação, apenas. O resto, contaram-me. Que usei um banco alto, que levei a boneca, que atravessei a estrada, como isso perturbou o quotidiano ordenado da minha avó que comigo nunca se zangava. Os piqueniques no pomar das macieiras. Maçãs riscadas e ácidas que ainda agora saboreio. O lilás do granzoal. Os caracóis sabiamente recolhidos nos cardos. As corridas de bicicleta e saltos na rampa de terra. O meu amigo que caiu no rio seco repleto de silvas. Ter de ir chamar os pais e desvelar que íamos pelos caminhos proibidos. A senhora que contava das almas penadas que habitavam o castelo. Todas belas mulheres vestidas de branco. O regresso a casa a pedalar em alta velocidade, sob o medo da noite e das mulheres de branco vindas do castelo. Os longos passeios às casas velhas, antigos solares, onde os fantasmas saiam pelas janelas sem vidros. O loureiro na curva sombria. Os dias de praia, de anémonas, estrelas e ouriços marinhos, caranguejos apressados. E os polvos a espreitarem nas rochas em manhãs de maré baixa. Fauna há muito desaparecida. As horas intermináveis de tapetes de conchas na areia, como os embrechados dos monges (sabíamos lá o que isso era). Tempo de culto. Os azuis e os verdes volúveis da baía abraçada pelas rochas contemplativas da serra. Memórias que vão e vêm como as ondas suaves que na praia se desmancham.
   Por fim, os passeios lentos com o avô nos seus últimos passos, como quem não quer alcançar a hora derradeira. E não queríamos. No quarto da avó em conversas de fim de tarde. O último telefonema a uma prima a estenderem-se por tempos antigos, de uma Lisboa que só conheço dos livros e destas frases cristalizadas.
   A sala silenciosa no burburinho de antigos rituais que deslizam no cheiro a cera e a cânfora. O armário do quarto atento e severo na sua verticalidade austera. Os bordados dos ócios extintos namorados por traças douradas de pó. O chapéu de palha há muito esquecido no gancho da porta, sem passeios de fim de tarde. A araucária de braços estendidos em gesto de catedral, onde o culto se consagra.


Sesimbra, 15 de agosto de 2015

quarta-feira, 15 de abril de 2015

No tempo de um café

No tempo de um café,
a tempestade.

A cor desta cidade
quando chove
não é a do brilho da chuva
mas do tempo
que tolhe.
Pranto, ódio, irritação
Trrrrransito…
Berra a escuridão
E o brilho da chuva
derramada
Cidade mortificada
turva
Em lama pelo chão.

O instante abreviado de um café… 
morno.


Lisboa, 15 de Abril de 2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

É no amor que nascem as palavras
É por amor que rompes o silêncio
É no amor que escreves o que rasgas
É por amor que gritas e te esmagas
É no amor que o sonho te supera
É o amor a tua longa espera
É o amor os dias solitários
Pelo silêncio dissipas as palavras
É por amor que gritas os teus sonhos
É nos teus sonhos que soltas os poemas
É nos poemas que esbanjas os sentidos
É sem sentido que amas as palavras
É o amor que sonhas e te esmaga
É com palavras que dizes o silêncio
É o silêncio que encobre o que te amarga
É o que gritas que amarga e te supera
É no amor que o sonho desespera
É no silêncio na ânsia e na fome
Onde o amor definha e se consome.


Raquel, 23/03/2015