quarta-feira, 11 de maio de 2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

POEMA INDIZÍVEL

Este é o poema indizível
Na garganta esgaçada
Da raiva contida
Da acção amarrada
Das ideias perdidas
Vozes censuradas
Das palavras escritas
Em folhas queimadas
Das cinzas esquecidas
Em alcatrão fervente
Da mão endurecida
Presa na corrente
Do ventre esgotado
Dos filhos perdidos
Do rosto cansado
De olhares aturdidos
Esforços desmentidos
Zelos mutilados
Vontade invisível
É tudo indizível.
Raquel
31 de Março de 2011

TRAGO

Trago na mão caneta e papel

Para escrever as palavras que não hão-de ser ditas


Trago na mente as ideias rasgadas

Nos voos nocturnos de sonhos remotos


Trago nas mãos o Nada

Do trabalho arrastado dos dias de Inverno

E os espasmos das horas enganadas


Trago os caminhos na memória esquecida

Em que vi das paisagens o negrume e o ódio


Trago os silêncios amargos

Das conversas nunca encetadas


Trago o Não dos olhares resignados

Dos que perduram


E o luto dos livros queimados

Em que me amortalham.


Trago um gole de vinho acre.


Do solo crestado e estéril

Sem fruto, sem chão, sem vida.


Raquel

31 de Março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011


A indiferença


Primeiro levaram os comunistas,

Mas eu não me importei

Porque não era nada comigo.


Em seguida levaram alguns operários,

Mas a mim não me afectou

Porque eu não sou operário.


Depois prenderam os sindicalistas,

Mas eu não me incomodei

Porque nunca fui sindicalista.


Logo a seguir chegou a vez

De alguns padres, mas como

Nunca fui religioso, também não liguei.


Agora levaram-me a mim

E quando percebi,

Já era tarde.

Bertolt Brecht

Dedico este poema a todos os Comunistas, Operários, Sindicalistas e Padres, e aos que o não são.

Aos que por ignorância, preguiça, egoísmo ou uma qualquer des-vontade a que chamaram, indevidamente, rebeldia, se entorpecem na Indiferença e pungem a vida aos ombros de cangalheiros.

Aos outros – os rebeldes, os Prometeus que desafiam o Poder perverso e sofrem, sangram briosos e inabaláveis.

A esses que acreditam, lutam, vibram, amam e constroem enquanto os outros, Indiferentes – resignados, descontentes de vãos-de-escada, servos lambe-gravata, mesquinhos e invejosos, felizes-da-miséria-alheia, desdobráveis, policopiáveis, descartáveis – se vão arrastando como tapetes amarfanhados onde quem quer avançar Tropeça!

Porque outros, ainda outros! hienas famintas se alimentam dos cadáveres abandonados no campo deserto da Indiferença.

Dedico-o também a mim, todos os dias como uma prece.

Raquel

23/03/2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

VIII – ENCONTRO

No rosto do outro um sorriso como se tivesse uma máscara de argila seca na cara

Estava a ler o jornal e um fulano-tal cumprimenta-o

A conversa de ocasião (igual a todas as outras) começa a jorrar até ao nº do outro piscar no visor onde se lê «senha» e «mesa»

E os números piscam vermelhos e electrónicos por baixo

Assim sabemos que chegou a nossa vez

Todos temos a nossa vez, julgo eu

O fulano-tal fala um monólogo a que o outro acena com a cabeça

Com os olhos pregados nos mosaicos cinzentos salpicados de preto e branco

Que forram o chão

O fulano-tal tem uma imensa desenvoltura a articular conversa-de-ocasião

O outro sorri como se a máscara de argila se tivesse quebrado em lascas

O seu número piscou vermelho.

VI

Aqui

Em espera na Segurança Social

As pessoas aproveitam a conversa de ocasião que tendem como a massa de fazer rissóis

Para queimar o tempo de uma manhã inteira.

O ardina

(já me esquecia que se extinguiram os ardinas)

A papelaria lá de baixo vende jornais e revistas de queimar o tempo de uma manhã inteira

As escadas rolantes sobem e descem corpos atónitos

Impacientes

Outros espalmam-se nas cadeiras a tempo inteiro

Na sua ocupação de desemprego

Os números passam vermelhos

Electrónicos

Demorados

Todos temos um número

Aqui e em todo o lado.

III - ANGÚSTIA

Esmagada

Respiração intercalada de oxigénio sujo

E nicotina

No peito um enorme enchimento para almofadas

Sintético (e não biodegradável)

O estômago espalmado

Como aspirado para obter o vácuo

Nas pernas um tremor, como no rosto

Nos lábios, nas pálpebras, no olhar.

(Deve ter sido assim que nasceu a moda oitocentista do peito-de-rola).