II
Andamos às cambalhotas.
Quando tentamos endireitar-nos,
Aquela vertigem que escorre como a água de um balde.
« - Bem sei que podem perseguir-me, arrancar-me os olhos, torcer-me as orelhas, transformar-me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei-de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO.» [Aventuras de João Sem Medo - Panfleto Mágico em forma de Romance, José Gomes Ferreira] «Fica a saber claramente:não trocaria a minha desgraça pela tua servidão.» [Fala de Prometeu, em Prometeu Agrilhoado, Ésquilo]
I
Estamos aqui por uma questão de minutos
Em segundos dormentes
Entre o sol nascente e o ocaso
Perene
Apartados da história e da memória
Subterrâneos
Pendentes de um acaso.
Servos clandestinos de um deus inconstante
Os segundos caem irrecuperáveis
Em algarismos
Corremos a passos electrónicos
Pelas veias viciadas das cidades
Rumos centrifugados
Mastigados, indigestos
Ascendemos, sim
Pelas escadas rolantes da estação de Metro
Subterrâneos, opacos
Electrónicos, mecânicos, sós.
Era uma vez uma janela
De uma casa à beira rio
Toda preta e aveludada
De luto como uma carocha
Não era casa era uma rocha
Era uma vez uma guitarrinha
Que todo o dia cantava
A história da carochinha
Toda preta e aveludada
Um chorinho morno bailava
A formiguinha embriagada
Que o carreiro abandonara
Numa manhã de trovoada
Entrara pela janela
Porque a porta estava trancada
Da casa preta e aveludada
Que era uma gruta encantada
E junto da guitarrinha
Dança, dança formiguinha
Que o carreiro abandonara
Era uma vez uma casinha
Toda preta e aveludada
Dali espreita uma janela
Com portadas escancaradas
Para o alto da colina
Onde acena La Fontaine
À formiga bailadeira
Que da guitarra se abeira
Como quem canta uma fábula:
«A formiga no carreiro
Vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo, caiu ao Tejo...»
Andam as pessoas tristes na rua triste
E chuvosa
Enxovalhada, charco de vida arrastada
Andam feias e penduricalhas
Penduradas migalhas na rua triste
Paralelas vão
Rente aos prédios de betão
Perpendiculares
Aos passeios parecidos com dentaduras
Que riem escancaradas
Que riem às gargalhadas
- Ignaras –
Onde rumos pré-traçados nunca se desviam
(Triste geometria em linhas rectas
Que se entre-intersectam)
Vida pra cá e pra lá
Que os prédios espartilham
Sem fôlego, sem ar, sem sangue
- Sem Amor –
Penduricalhas as pessoas tristes
Penduradas, migalhas
Lá vão pela manhã
Com a vida num saco do Dia
Onde se amparam para seguirem
No charco chapinham...
Raquel
9/11/2010
Cidade,
Nodosa alma
Latejam artérias
O dia, a hora...
Perecem segundos
Enquanto a chuva demora
Cadência calma
No labirinto nodosa alma
O vaivém que não abranda
E a chuva demora.
Entre paredes os caminhos seguem
Segmentos de vida
Inacabada
Ilusão de estrada
Onde os passos caem
Inconstante forma
Que resvala
Um tratado, uma lei
Uma norma.
Raquel
8/11/2010
Estamos todos suspensos numa mola de ar
Que o vento leva e traz
E a acalmia estanca
A terra emana o seu odor de cio
- O húmus que se altera em desafio.
Os rios em pranto
Sulcam montanhas
E no vale se aplacam
Onde a terra os abraça.
Suspensos
Numa mola de ar
Vemo-nos em gestos e rostos corrompidos
Reflexos de água pura
Nesse ventre
Outros seres procriam.
Raquel C.
20/10/10
A Morte é o mais amplo de todos os mistérios.
Em primeiro a agonia da impossibilidade de comunicar.
Depois o folhear de recordações.
Por último, alojamos os nossos entes queridos num mesmo lugar (do nosso afecto) de onde nos vêem e ouvem, e para eles, de tempos a tempos, agimos e mostramos com carinho aquilo que gostaríamos que eles soubessem de nós. Pensamos: “isto é para ti”, crentes de que eles ficarão felizes.
E nessa vivência do mundo dos nossos mortos, cada vez mais povoado, vamo-nos acostumando à sua proximidade.
14/10/2010