quarta-feira, 15 de abril de 2015

No tempo de um café

No tempo de um café,
a tempestade.

A cor desta cidade
quando chove
não é a do brilho da chuva
mas do tempo
que tolhe.
Pranto, ódio, irritação
Trrrrransito…
Berra a escuridão
E o brilho da chuva
derramada
Cidade mortificada
turva
Em lama pelo chão.

O instante abreviado de um café… 
morno.


Lisboa, 15 de Abril de 2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

É no amor que nascem as palavras
É por amor que rompes o silêncio
É no amor que escreves o que rasgas
É por amor que gritas e te esmagas
É no amor que o sonho te supera
É o amor a tua longa espera
É o amor os dias solitários
Pelo silêncio dissipas as palavras
É por amor que gritas os teus sonhos
É nos teus sonhos que soltas os poemas
É nos poemas que esbanjas os sentidos
É sem sentido que amas as palavras
É o amor que sonhas e te esmaga
É com palavras que dizes o silêncio
É o silêncio que encobre o que te amarga
É o que gritas que amarga e te supera
É no amor que o sonho desespera
É no silêncio na ânsia e na fome
Onde o amor definha e se consome.


Raquel, 23/03/2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

A noite é uma estátua de pedra
silenciosa
desvela  o mistério das horas
16/03/15

domingo, 18 de janeiro de 2015

A flor sagrada é uma campainha que toca em silêncio

   Quando eu era criança, Massamá era um Lugar composto por um conjunto de pequenas habitações de construção chã, em volta do qual se estendiam casais e quintas com terrenos a perder de vista até Tercena, Cacém ou Queluz.
   Havia algumas crianças com as quais brincava, mas a maior parte do meu tempo era passado na companhia dos cães – a Violeta, uma perdigueira extremamente meiga, e o King, um pastor alemão que me transportava no seu lombo. Com eles explorava estes campos que, na Primavera, se cobriam de flores silvestres tingindo a paisagem de roxo, amarelo e vermelho. Talvez seja por isso que estas se mantiveram as minhas cores preferidas até hoje. Havia dezenas de espécies de pássaros, insectos, coelhos, algumas cobras e ouriços caixeiros, e toda esta fauna autóctone habitava o meu quotidiano de passeios intermináveis pelos campos - hoje ruas de alcatrão que formam uma teia entre os prédios e algumas construções antigas que perduraram e que é preciso descobrir.
    Nos meus passeios primaveris, entretinha-me a descobrir flores secretas, que eram aquelas que existiam em menos quantidade. Eram pequenas e muito belas, talvez por serem raras. Entre elas contavam-se as campainhas, com a forma de uma campânula de molde oblongo, que escondia um “pêndulo” amarelo. Eram carnudas, castanhas, quase roxas (ou cor de beringela), e formavam umas pequenas riscas no topo que se tornavam definidas junto ao caule, se as observávamos com atenção. Estas eram as minhas eleitas, e nunca as colhia por serem, para mim, sagradas; tão diferentes de qualquer outra flor, não possuíam folhas nem pétalas, nem se prestavam a serem colocadas numa jarra. Brotavam discretas e escondidas no meio de ervas e outras plantas que floriam. Descobri-las exigia persistência e dedicação à tarefa de conviver com os segredos da natureza. Descobri-las era a resposta dos deuses à minha curiosidade pelo mundo.
   Há dias, no meu percurso pelo jardim, encontrei uma dessas campainhas, esgueirada para a beira do caminho, como quem grita: “Estou aqui! Lembras-te?”. E fiquei a pensar de que quereriam os deuses que me recordasse nestes dias frios e sem luz. De alguma dessas coisas maiores que fazem parte da eternidade, com que convivemos nos dias da infância. De alguma Primavera, dessas que acenam em dias agrestes de Inverno.
   Hoje resolvi ir colhê-la com uma foto, mas já só me foi concedida metade da flor, já quebrada. Deitada no húmus.
Massamá, 18 de Janeiro de 2015


sábado, 29 de março de 2014


Eugénia

Em cada ano gritam as orquídeas
Quando tu à terra devolvida
Num sorriso perene
Nos deixaste.

Em cada ano floresces no jardim
Nas derradeiras flores que te colhi.

Raquel
29 de Março de 2014








sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O PODER

   Por vezes recordo um episódio que se passou comigo há uns anos atrás, quando os meus filhos estudavam num colégio, onde estudavam filhos de pessoas comuns, mas também os de pessoas com Poder – políticos e outros traficantes da miséria humana que pude observar no seu inchaço infeccioso, germens de nação doente.
   Esse colégio está situado numa quinta de Chelas, estrangulado por quilómetros de bairros de infortúnio e delinquência que vacilava em redor dos muros da antiga quinta.
   Numa manhã comum, em que fui deixar os meus filhos, conduzia pela avenida que desce uma das encostas da colina, quando um desses carros do Podeerrrrr me ultrapassou combativo – a deixar ressaltar a soberba que, de dentro, emanava. Ultrapassou-me a mim e ao carro “tuning” que seguia diante do meu.
   O semáforo luziu vermelho e estancou a fúria do “ultrapassante” por imposição da circulação perpendicular da outra via. Do carro da frente saltaram quatro desses filhos de Chelas, da miséria, da incúria humana... E aquele diamante da rodovia foi coberto de escarros, de pontapés, de murros, de injúrias, e o resto não vi porque o semáforo iluminou-se de verde e contornei aquela luta de poderes. De quem é o Poder?

Raquel

25/10/2013
L’ÉTANG

J’aurais envie de replonger dans cette branche de mer perdue
Mais tous mes songes furent suspendus
Dans un instant si pénible
Que je défile, invisible
Entre la mémoire et l’inconnu

Ce long couloir d’alabastre
D’une montagne éventrée
Un souffle, un astre
La liberté

Raquel

18 octobre 2013