quinta-feira, 22 de março de 2018

PASSOS LÍQUIDOS

O teu silêncio
Esse leito de brasas onde arquejas
Na solidão
O vulto com que te ausentas
Em passos líquidos
Escorre pelos muros
De musgo o orvalho da manhã
O caminho é cerrado
Até ti
De floresta e bruma

Fragmentada
A noite ecoa
No silêncio do teu
Clamar
O gesto transparente
Da aurora
Acena
Um adeus caído entre gotas
Mornas
Da chuva replica
O odor esmaecido
Onde te lembro
E a Primavera em chama
Como se um adeus
Fosse
Somente despedida.

Raquel Coelho

21/03/2018

A ESQUINA


Encontrei-me contigo numa esquina
Não foi bem um encontro
Foi um encontrão
Vínhamos distraídos
Íamos distraídos porque
o amor
na agitação da cidade
os prédios a tombar de gente
os autocarros a cuspirem horas
(de atraso)
De quê?
os passos tropeçados nos escarros dos passeios
Enfim, no meio da pressa
Esquecemo-nos da vida
Dizia eu que
O amor
Tinha ficado esquecido talvez
No assento sujo
Do táxi naquela manhã
Em que
O despertador não
Soou.
Que manhã!...
Com a pressa porque o despertador não tocou
O telefone caído no
Duche o autocarro
A deixar a paragem
Corri…
Mas caiu-me do bolso
Gritei
Gritei pelo táxi e por tudo o que perdi
POR TUDO O QUE PERDI
Gritei pelo táxi
Que vinha a passar mal
O autocarro largou da paragem
Parecia de propósito
Logo naquela manhã em que iria encontrar a esquina onde me cruzaria contigo e…
TAXI! TAXI!
Gritei
Ofegante entrei disse o nome
Da rua o trajecto mais curto
Tinha muita pressa nunca me tinha atrasado
O despertador
Falhou só daquela vez
Disse o trajecto mais curto passou
Alguns vermelhos e cheguei
Pouco antes de ser despedido
Julgo eu… Talvez
Tenha sido despedido antes de chegar
Mas não o pude saber
(Não pude saber o que aconteceu antes de eu ter chegado)
Foi nessa manhã
Perdi tudo mas tive a sorte
De encontrar o meu nome entornado
Na berma da estrada era ele
Era ele sem mim
Mas de que me serviria um nome sem gente lá dentro?
Quando curvei a esquina tu
Já tinhas partido
Curvei e recurvei a esquina para
Te encontrar
Tinha a certeza que naquela manhã
Me iria encontrar contigo
Nessa esquina
Era a esquina onde te pediria que me desculpasses
O encontrão
(um acaso)
Onde saberias que iria distraído
Era esse o momento de te sorrir
Quando te pedisse desculpa
Ficarias a olhar-me
surpreendida
e talvez me respondesses qualquer coisa
Convidar-te-ia para um café dir-te-ia
O meu nome
(sem ninguém lá dentro, sim, mas
era o que tinha para te oferecer)
Dar-te ia o número do meu telefone
caído no duche perderia o autocarro e talvez
surgisse o táxi onde
naquela manhã deixei
o amor
Convidar-te-ia para um café fora
Da cidade junto ao mar

Mas o mar ondeia sempre
Em movimentos
Circulares
Cir-cu-lares…
Como poderia
Ali
Descobrir a esquina parada onde
Sei que te encontraria?
Como poderia
fora da cidade das janelas cegas
Dos autocarros perdidos dos despertadores
Caídos na berma da estrada…
Como poderia encontrar-te num mar
Sem esquinas?


Raquel Coelho
21 de Março de 2018





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Carta de Natal

Caro amigo,
A rua desce sombria
E rápida, mas a subida dura
É soalheira.
O franco azul
Do céu cheira a orvalho e maresia
(mesmo rasgado pelo avião a jacto)
Nele não se desenham
Nem estrelas nem o luar
Mas na colina a erva
Cintila.
Já amanheceu há muito. O ruído
Rompeu a aurora rotineira
Desta sexta-feira (vésperas
De Natal
De 2016). Estamos em 2016,
Caro amigo, e as pessoas por aqui ainda
Festejam.
Passou
Tanto tempo
Há, como sempre, rostos
Alegres e tristes
Pensativos e ausentes
Atentos, dispersos
Vazios desrostos
Desgostos
Que descem a rua sombria ou sobem
Num esforço de sol quente.
É assim
Há muito tempo, caro amigo,
Os anos passaram e nada mudou.
Os pássaros chilreiam enquanto estrondeia
A guerra
Do outro lado do mundo.
O lado distante que não vemos.
No mundo há sempre dois lados, caro amigo.
O tempo passa e
Há sempre o outro lado do mundo. Aqui
Festeja-se o Natal porque
Está na ordem da vida festejar.
Também os gatos
Lá fora
Festejam o sol de corpo
Estendido como tapetes
Festejam a morte
Das lagartixas e dos ratos. Há sempre
O outro lado da vida, caro amigo.
Até os gatos sabem disso
Quando ronronam.
Há muito tempo que assim acontece. Os homens festejam
A guerra com tiros de fogo e aguardente velha.
(Os que estavam mais perto da morte e sobraram
Bebem bagaço). Passam os séculos
Com o mesmo cheiro a enxofre e aguardente. Sempre
Foi assim, caro amigo. Aqui é Natal e os homens
Festejam. O ocaso
Eclodiu em tonalidades lentas: azuis,
Vermelhos, roxos, laranja, verdes, rosa
Até ao mais profundo
Azul da noite estrelada. Agora as sombras
Desafiam os cães
(como sempre aconteceu).
O chilreio ensurdeceu nas copas das árvores. Ao longe
Do outro lado a guerra pranteia.
A rua desce e sobe
Nocturna e fria. De que nos servem no Inverno
As copas das árvores sombrias?
O pinheiro, por exemplo, torna a noite de Inverno
Mais escura
Como a morte.
Mas o seu perfume permanece aqui em noites mornas
De Verão. (Há sempre o outro lado, amigo)
Outras de folha caduca
Gritam viuvez
De braços agudos pela lua adentro
Feiticeiras mortas famintas
 E não é ódio, caro amigo, é medo
Medo do vento e da geada
Medo da guerra, do abandono
Do sangue esquecido que corre pela estada. As folhas partem
Errantes sem rumo sem cor
O perfume verde do pinheiro
Ilumina-se
É Natal.

Raquel Coelho
23/12/16








sexta-feira, 6 de maio de 2016

O meu texto para a exposição da Sara Franco e do João Fonte Santa

na sombra do caos derr-ama a memória. armas de aço. armas a morte. ar, mas sufocar. arte. tu ar. toada. és tu. lindo o cartaz. estrelas ca-dentes d'enfeitar.d'enganar. de-rra-me no teu ventre sen-su-alizado suado nesta que-da sem fim. p'ra mim. derrama-me. ama-me assim. explo-de de explosão. com-some-te. some-te. fome.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Nós, portugueses,
herdeiros de barcos naufragados
colhemos do mar a morte, a vida e os poetas
o medo que nos tolhe
e a luz que nos liberta.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fénix

É assim que nós, de cada vez que morre alguém que nos é querido, vamos perecendo aos poucos. Atónitos, ainda, diante da foice implacável...
Chegados ao estado das folhas do fim do Outono, um frágil rendilhado de nervuras, quase húmus, ali ficamos, indeléveis, no silêncio dos tempos.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Há pessoas que vivem como larvas, de carácter tão rasteiro, que nem para um voo de varejeira conseguem ter asas.