Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Resvalam navios oblíquos
Em despedidas lentas
Murmúrios de cascos rompem as águas
Densas
A paisagem baloiça em agonia
E a cidade despede-se de janelas fechadas.
Na outra banda
As casas diminutas tropeçam nos “outdoors” publicitários
(Em inglês importado por avultadas quantias)
O mar avança como no cinema
O tempo solta-se
Na distância irreversível da saudade
O mar tumular lamenta-se
Do infinito.
Num quebranto de ondas resignadas
Os corpos repousam em tumbas magníficas
Erigidas de dor e pranto
O mausoléu
Por detrás da última serra
Entoa o lamento secular dos homens.

Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Tenho os olhos cheios de letras

Como grãos de areia da praia com vento

Tantas palavras como sedimentos

Tantas ideias que compõem rochas

Tantos castelos, aldeias e templos

Que o vento consome

Tornados segredo.

1/06/2011

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

e aqui está a minha participação na Big Ode # 8

Aqui está a Capa da Big Ode # 8

O tempo de Verão desperta uma série de emoções que conduzem ao desequilíbrio equilibrado da adolescência (da qual não me desenlaço). O desafio do risco. O descomprometer vagarosamente. Avançar sem destino. Partir, vaguear. Entrar em confidência com a brisa morna. Brotar do recanto do Inverno. Deixar-se ir. Deixar ir. Ainda estou à procura da palavra – a música pode exprimi-lo tão bem! Bastam três acordes de guitarra. Ou o som do piano que transpõe a janela de uma casa vazia. Para quem passa e abandona o olhar até ao 2º andar. A cidade tem destas coisas. Na cidade reverdece a natureza. Humana.

11/05/2011

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Tempos Frágeis: Tempos de grandes mudanças, até nas pequeninas coisas. Ou a poesia está Tão na Moda. Ou eu não sei o que hei-de fazer com o ócio e

Tempos Frágeis: Tempos de grandes mudanças, até nas pequeninas coisas. Ou a poesia está Tão na Moda. Ou eu não sei o que hei-de fazer com o ócio e ponho-me a escrever coisas.

Soube hoje pela rádio que o Frágil promove agora sessões de poesia!

Isto pareceu-me uma mudança tão radical como a do skinhead que se transmutou numa adorável assistente das minorias excluídas.

O lugar mítico da noite do Bairro Alto dos anos 80, com aquela senhora à porta cujas medidas eram exactas para censurar a entrada aos não-clientes-habituais, lá de cima, empoleirada no topo da “pirâmide social”. Entrada onde se ficava entre a “rainha da noite” e o seu capanga endomingado.

E quando se penetrava naquele lugar de elite frívola e mesquinha, vislumbrava-se certamente essa apetência para a poesia que hoje, ao fim de vinte ou mais anos, se revela.

Eu é que entornava sempre a poesia toda pela Atalaia abaixo.

Não quero dizer com isto que o Frágil não seja uma boa carta no baralho das felizes recordações dos anos 80. Um valete, talvez. Depende do jogo.

Mas poesia?

Aquele talvez fosse dos poucos lugares onde fossemos despojados de toda a poesia que trouxéssemos na algibeira. Logo na entrada, com a autoridade à porta (e aí residia a grande diversão!), como quem escolhe entre os homens: os bons e os maus, os judeus e os católicos, os ricos e os pobres e o resto do rol que já sabemos. Mas era uma autoridade promovida pela elite! (a elite eleita pela elite – o eterno espasmo). A censura dos que lutam pelas minorias e pela diferença. Era uma autoridade com bons princípios!

E agora lá vem a poesia!

Enfim, talvez possamos remeter a nossa memória, através destas recordações para duas acções poéticas: a música dos Ocaso Épico que julgo ter este nome: «Eu quero ir ao Frágil» (lembro-me da musica e da letra, mas sei lá como lhe chamaram), ou para o poema do Almada – LIBERDADE:

«(...)Havia dois vasos iguais. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter água simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era à sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguém queria ser o primeiro a começar.

Depois começaram a beber o licor. Diziam coisas tão felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! estavam a aumentar a olhos vistos, juro-te!

Os que beberam do outro vaso não divertiam ninguém. Iam-se logo embora. E já ninguém se lembrava deles.

Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu também bebi do licor. Não imaginas, Mãe! Nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!

Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã também estava a aumentar.

Depois, quando já estava quase do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.

Então, pus-me logo a escorregar desde lá de cima, até aonde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.

A escorregar, a ser necessário escorregar, a querer por força escorregar, a custar imenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar. – O verbo desinchar!

O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo.»

Raquel

7/04/2011

Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

POEMA INDIZÍVEL

Este é o poema indizível

Na garganta esgaçada

Da raiva contida

Da acção amarrada

Das ideias perdidas

Vozes censuradas

Das palavras escritas

Em folhas queimadas

Das cinzas esquecidas

Em alcatrão fervente

Da mão endurecida

Pressa na corrente

Do ventre esgotado

Dos filhos perdidos

Do rosto cansado

De olhares aturdidos

Esforços desmentidos

Zelos mutilados

Vontade invisível

É tudo indizível.

Raquel

31 de Março de 2011