sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

I

Estamos aqui por uma questão de minutos

Em segundos dormentes

Entre o sol nascente e o ocaso

Perene

Apartados da história e da memória

Subterrâneos

Pendentes de um acaso.


Servos clandestinos de um deus inconstante

Os segundos caem irrecuperáveis

Em algarismos

Corremos a passos electrónicos

Pelas veias viciadas das cidades

Rumos centrifugados

Mastigados, indigestos

Ascendemos, sim

Pelas escadas rolantes da estação de Metro

Subterrâneos, opacos

Electrónicos, mecânicos, sós.

Raquel, 7/01/2011


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Era uma vez uma janela

De uma casa à beira rio

Toda preta e aveludada

De luto como uma carocha

Não era casa era uma rocha


Era uma vez uma guitarrinha

Que todo o dia cantava

A história da carochinha

Toda preta e aveludada


Um chorinho morno bailava

A formiguinha embriagada

Que o carreiro abandonara

Numa manhã de trovoada

Entrara pela janela

Porque a porta estava trancada

Da casa preta e aveludada

Que era uma gruta encantada


E junto da guitarrinha

Dança, dança formiguinha

Que o carreiro abandonara


Era uma vez uma casinha

Toda preta e aveludada

Dali espreita uma janela

Com portadas escancaradas

Para o alto da colina

Onde acena La Fontaine

À formiga bailadeira

Que da guitarra se abeira

Como quem canta uma fábula:

«A formiga no carreiro

Vinha em sentido contrário

Caiu ao Tejo, caiu ao Tejo...»


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Andam as pessoas tristes na rua triste

E chuvosa

Enxovalhada, charco de vida arrastada

Andam feias e penduricalhas

Penduradas migalhas na rua triste

Paralelas vão

Rente aos prédios de betão

Perpendiculares

Aos passeios parecidos com dentaduras

Que riem escancaradas

Que riem às gargalhadas

- Ignaras –

Onde rumos pré-traçados nunca se desviam

(Triste geometria em linhas rectas

Que se entre-intersectam)

Vida pra cá e pra lá

Que os prédios espartilham

Sem fôlego, sem ar, sem sangue

- Sem Amor –

Penduricalhas as pessoas tristes

Penduradas, migalhas

Lá vão pela manhã

Com a vida num saco do Dia

Onde se amparam para seguirem

No charco chapinham...


Raquel

9/11/2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cidade,

Nodosa alma

Latejam artérias

O dia, a hora...

Perecem segundos

Enquanto a chuva demora

Cadência calma

No labirinto nodosa alma

O vaivém que não abranda

E a chuva demora.


Entre paredes os caminhos seguem

Segmentos de vida

Inacabada

Ilusão de estrada

Onde os passos caem

Inconstante forma

Que resvala

Um tratado, uma lei

Uma norma.

Raquel

8/11/2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O ESPELHO

Estamos todos suspensos numa mola de ar

Que o vento leva e traz

E a acalmia estanca

A terra emana o seu odor de cio

- O húmus que se altera em desafio.


Os rios em pranto

Sulcam montanhas

E no vale se aplacam

Onde a terra os abraça.


Suspensos

Numa mola de ar

Vemo-nos em gestos e rostos corrompidos

Reflexos de água pura

Nesse ventre

Outros seres procriam.


Raquel C.

20/10/10

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dedicatória

A Morte é o mais amplo de todos os mistérios.

Em primeiro a agonia da impossibilidade de comunicar.

Depois o folhear de recordações.

Por último, alojamos os nossos entes queridos num mesmo lugar (do nosso afecto) de onde nos vêem e ouvem, e para eles, de tempos a tempos, agimos e mostramos com carinho aquilo que gostaríamos que eles soubessem de nós. Pensamos: “isto é para ti”, crentes de que eles ficarão felizes.

E nessa vivência do mundo dos nossos mortos, cada vez mais povoado, vamo-nos acostumando à sua proximidade.

Raquel

14/10/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Arrastam as sombras pelos muros da cidade
Já desfeitos
O pó
Passos espezinhados
Vaivém
Ruído

Descascados da espera
Interesses corrompidos

Os muros da cidade estão despidos
Castigados
Rasgados de verdades retraídas

São muros de palácios de tascas de jardins
Todos oblíquos
Paisagens cubistas em manhãs de penumbra

São as ruas que descem ao rio
Sequiosas de luz

Mas o rio é uma silhueta cerrada
Calabouço

A violência por detrás das sombras
A noite de capote avança

A noite de capote avança
E tu sabes
Não te escondes, gritas, resvalas
Com as entranhas diluídas nos escoadouros
Até ao último grito
Até ao último som
O eco da última palavra.

1/06/2010
Rk